domingo, 21 de novembro de 2010

Bens

"La Chambre Meilleur" - Vincent Van Gogh

Ele buscava seus bens! - Que bens são esses? - perguntava uma sombra inquieta, escurecendo um dos lados do rosto do sujeito pequeno, franzino, melancólico. Naquela altura ele percebia que tinha encolhido, se sentia com pouco mais de um metro e vinte, por aí. O mundo, e os desafios que tinha pela frente, pareciam verdadeiros gigantes, titãs colossais indestrutíveis, intransponíveis, amedrontadores.
- Mas que merda! - repetia pra si uma centena de vezes.
- Bom, mas voltando aos bens... o que realmente tu considera por bens? Saúde, paz, alegria, sucesso? É tipo isso??? - era a sombra, cada vez mais inquieta.
- Também! - respondeu, meio incomodado com o surrealismo daquele diálogo.
- Tá. Com esse "também" ai quer dizer que tens outros tipos de bens. O que seria exatamente?
- Outros tipos, ora.
- Tu não é de falar muito né?
- Não. Menos ainda com uma sombra! Assinei meu atestado de insanidade plena. -
dizia ele, já transtornado com a situação.
- Meu, pensa no seguinte: se eu não estivesse aqui, falando contigo, provavelmente tu estarias sentado num canto qualquer, pensando em besteira, choramingando feito besta... eu tô aqui pra te ouvir, pra te dar uma força. Conta ai, o que tens procurado tanto? - silêncio. Quase nem a respiração se ouvia.
Alguns minutos depois: - Queria tantas coisas diferentes. Queria sentir menos medo e mais esperança. Menos dor e mais prazer. Menos tristeza e mais alegria. Menos tantas coisas, e mais tantas outras... que merda! - soltou um suspiro de cansaço.
- Humm, é isso então. Os bens que procuras são as coisas que tu querias, mas não tens.
Cara, tenho que te dizer: a vida é assim mesmo, meu camarada. Todo mundo tem algum querer que só quer.
- É, mas eu tenho vários!!!!! -
esbraveja, meio debochado.
- Pois é, mas pensa: o que tu podes fazer pra deixar de querer e passar a ter? -
silêncio de novo. Ele até então não havia pensado nisso. Tinha se concentrado tanto em entender as dores que sentia que não pensou em como combatê-las.
- Ficou sem resposta né? Eu imaginei. Quem se afunda no oceano geralmente só pensa que vai morrer afogado ou comido, no bom sentido, por um tubarão. Mas sempre é possível nadar. Talvez seja muito fundo, muita corrente, muitos tubarões esfomeados, talvez nem nadar se saiba. Mas se não tentar, negô velho, ai nem se Moisés aparecer e partir o mar ao meio.
Tá, tudo bem, o exemplo de Moisés foi tosco, mas tu entendeu né?
- Entendi, entendi tanto que agora sim tenho a certeza que enlouqueci de vez.
- Hehehe. Normal. Já acostumei. Mas se te deixa feliz, até o Van Gogh conversava com as sombras!
- Bah, isso me deixa muito feliz mesmo, visto que o Vanh Gogh cortou a própria orelha com um canivete antes de ser internado num sanatório e se suicidar. Bem legal.
- Humm.. é... hamm... tá, esquece isso. O que importa é que tu entendeu. E tem outro caso também... -
antes que a conversa prosseguice ele estica o braço e apaga a luz. Fim de papo, já é tarde. Duas e pouco talvez? Hora dos sonhos. Hora de buscar os bens da única forma que havia conseguido: dormindo.
No sono a voz adocicada que ouvia não era de nenhuma sombra destrambelhada tagarelando conselhos malucos.
No sono ele ouvia Ela. Calma. Tranquila.
Não só ouvia como via, como um anjinho, só que com asas de borboleta.
Sorrindo, dava um beijo na testa e dizia bem baixinho - Calma, cara! Vai ficar tudo bem!!!!

E ele, nesse exato instante, encontrava os benditos bens.

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